Memória de minhas putas tristes

“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio.”

 

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Memória de minhas putas tristes. Record. 2005.

 

Fernão de Magalhães

“Não sabia sorrir, ser amável, cortês, nem sabia tão pouco defender eloqüentemente suas idéias e pensamentos. Taciturno, reservado, sempre envolto numa bruma de solenidade, criou esse eterno isolado ao seu redor, uma gélida atmosfera de frieza, desconfiança, mal-estar. Seus companheiros percebiam-lhe inconscientemente, no silencioso retraimento, uma ambição obscura, cujo objetivo lhes resultou incompreensível e, portanto, mais suspeito que o daqueles que procuram impetuosa e abertamente determinadas situações. Sempre ficava algo inacessivelmente escondido detrás dos duros olhinhos redondos e encovados, detrás da boca encoberta pela barba emaranhada, um segredo que nunca deixou entrever; e um homem que guarda um segredo e tem a força necessária para mantê-lo durante anos apertado entre os dentes, sempre parece sinistro aos de natureza confiante e que não sabem calar.”

ZWEIG, Stefan. Fernão de Magalhães em Obras completas, Ed. Delta, 1956.

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Eu adoro e-mail. Dar um toque em velhos amigos, que ficaram ou foram pra longe, “regar a plantinha” e tal; trabalhar (bem mais fácil com os gringos), evitando gastar dinheiro e alegria pelo telefone. Mas tem aqueles e-mails pentelhos que você vai receber uma vez por mês de desocupados variados. Um dos campeões é o da lista gigante de troços dos anos oitenta. E dá-lhe magaiver, boneca não-sei-o-quê etc. Tenho algumas lembranças dos anos oitenta, e antes que elas se esvaneçam em fumaça, sigo a regra, mas sem encher a caixa de ninguém:
- Aula de Educação Moral e Cívica (que não funciona), Organização Social e Política do Brasil e Educação Para o Trabalho (idens);
- Foto do Figueiredo na primeira página dos livros escolares;
- Delfim, Maluf, Abi Ackel, Cesar Cals, Ernane Galvêas, Bob Fields, Passarinho no Jornal Nacional e meu pai imprecando;
- Tentar ajustar o horizontal da TV;
- Plantão pra gravar cassete com música do Chico Buarque na FM;
- LP com faixas riscadas pela censura;
- Cartazes de fugitivos políticos no poste em frente à lotérica;
- Ouvir disco do Juca Chaves, proibido para menores de 18.
- Ver o “alvará” dos filmes no cinema antes da projeção, assinado pela Solange Hernandes (aquilo parecia um cheque vagabundo);
- Ver o adesivo (ou colante) “oPTei” em carros fodidos;
- Ver o prefeito nomeado de Santos desfilar num jipe militar no sete de setembro;
- Revista Veja subversiva;
- E por ai vai.